quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Tas, quilombolas e indígenas: a rede mudou?

O encontro do jornalista Marcelo Tas; TC, líder tecnológico quilombola e Anápuáka Muniz Tupinambá Hã-hã-hãe (Etnia Tupinambá), índio-conectado e membro da Web Brasil Indígena para um bate-papo sobre a internet mobilizou boa parte dos campuseiros. Os três contaram seus primeiros contatos com a tecnologia digital e refletiram sobre o papel da internet como catalisador de mudanças no mundo real.

Marcelo Tas iniciou o bate-papo destacando como principal virtude da rede a sua descentralização. E contrapôs a lógica da internet à do sistema educacional: "Fui forjado em um sistema que só tinha um provedor de informação [o professor]". Mas emendou em seguida que não se tratava de uma crítica à educação, mas uma oportunidade para o professor desempenhar seu verdadeiro papel: o de provocar e aprender junto.

Tas observou que a experiência na rede é individual; ninguém divide o mouse com ninguém, mas, paradoxalmente, a incursão na internet promove uma grande experiência coletiva. Essa colocação encontrou ecos nas experiências dos participantes quando relataram seus primeiros contatos com a tecnologia digital.

Anápuáka Muniz contou que saiu de sua tribo no interior da Bahia para estudar. "Fui morar no Rio [de Janeiro] aos 13 anos e fiquei ausente durante muito tempo da minha aldeia. Comecei a trabalhar em rádios comunitárias e, a partir de 2001, tive meu primeiro contato com computadores, um Pentium 100, que custou R$ 3 mil". Em abril daquele ano ele conheceu a internet por meio de um chat do projeto Rede Índios online, o que permitiu, depois de 7 anos, que ele falasse com seus parentes em sua aldeia natal. Posteriormente Muniz passou a coordenador do projeto onde ficou até o fim de 2007.

Para o líder quilombola TC, somos redes vivas, pois funcionamos tanto virtual quanto fisicamente. Isso permite uma velocidade de acesso que até pouco tempo não tínhamos. Ele também contou quando começou a pensar que a tecnologia poderia ser apropriada pela sua comunidade para a transformação social. "Presenciei um momento marcante da produção multimídia nos anos 80 em São Paulo: a chegado de aparelho de gravação DAT. Aquilo permitia uma liberdade para a produção musical independente, longe das gravadoras. Aí percebemos que o universo digital seria no futuro extremamente importante".

Ele afirma que a internet viabiliza hoje a existência da Rede Mocambos, que integra 50 comunidades conectadas em 17 estados do país. "Mas existem comunidades quilombolas no Estado de São Paulo que ainda nem tem orelhão. O Brasil perde muito na medida em que não democratiza o acesso a grande parcela da população", ressalvou.

Marcelo Tas foi o último a relatar sua "primeira vez" na rede. Abriu sua apresentação em slideshow com um esboço em papel do projeto que deu origem a internet (Arpanet), de 1969. A seguir homenageou duas pessoas que em sua opinião mudaram a mundo com suas idéias: Arthur C. Clark, que em 1945 em um artigo imaginou um mundo se comunicando via satélites, e Alex H. Reeves. Reeves - chamado por Tas de "o pai de todos os piratas digitais" - criou em 1938 o PCM: o método de reproduzir informações analógicas em códigos binários, o que, posteriomente, permitiu a criação de dvds e cds.



Sobre seus primeiros contatos com a internet, relatou: "Minha primeira vez na rede foi em 1988 durante um curso chamado midias interativas lá em Nova York. Quando voltei para o Brasil não tinha com quem conversar, pouca gente tinha ouvido falar da internet", lembra. "Agora, 22 anos depois, olha onde estamos, a velocidade das mudanças... Temos a chance de aprender a ter mais liberdade com a comunidade se apropriando desse veiculos de comunicação para caminharmos para uma uma sociedade mais justa", referindo-se às possibilidades de informação e mobilização abertas pela internet em um ano eleitoral.

TC concordou com Tas, mas ressaltou a importância de não nos esquecermos de nossas raízes: "Acho que precisamos nos apropriar dessa condição de liberdade e canalizar isso para uma mudança efetiva desse país, uma mudança concreta. Mas precisamos ter elementos que nos liguem a nossa terra, nossa espiritualidade. Senão, seremos meros consumidores dessas coisas velozes pois elas não apontam para nosso interior e sim pra coisas que talvez não tenham muito sentido para a gente. Nós é que precisamos dar sentido a elas".

O represente indígena concluiu que são as pessoas que promovem as mudanças e não as ferramentas tecnológicas.

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